O Brasil convive atualmente com uma epid3mia: O assa55inato de suas mulheres. Uma tragédia antiga, reincidente, corrosiva e, ainda assim, tratada com a normalidade. Mudam as leis, endurecem as penas, mudam os discursos, mas o roteiro permanece assustadoramente fiel e repetitivo. O que me inquieta é perceber que vivemos tempos em que o crime não termina no ato em que ele é cometido. Ele continua na repetição.
Ele continua no incentivo. A cada fem!nicídio narrado com detalhes por TVs sensacionalistas e redes sociais em busca de likes, reforçamos um mecanismo psicológico que, em outros contextos, é conhecido como "Efeito Werther".
Que é, basicamente, quando a violência é exposta de forma crua, constante e repetitiva, ela deixa de ser apenas registrada em uma mente doentia e passa a querer ser replicada. Se o 5uicídi0 é “contagioso” em mentes fracas e é incentivado pela narrativa irresponsável, por que o fem!nicídio estaria imune?
Não é difícil perceber essa espiral de repetições que está acontecendo. Um crim3 brutal é cometido, é noticiado à exaustão, então desencadeia outro homem ressentido a acreditar que “sua história” também merece o mesmo "espetáculo" e que sua fúria merece a mesma repercussão e que seu nome, ainda que trágico, estará nas rodas de conversa do dia seguinte.
Não se trata, em hipótese alguma, de proteger o criminoso. Trata-se de proteger a vítima e todas as que ainda podem ser vítimas. Quando algo se banaliza e vira espetáculo diário, ele deixa de ser exceção e passa a habitar o território perigoso da normalização.
A punição, os anos de prisão, advogados fazendo contas de quando será solto, antes era símbolo de medo para o agressor, vira apenas um número. E o agressor em potencial, assistindo ao desfile de tragédias repetidas, identifica-se, fantasia-se protagonista e convencido de que seu ato encontrará o mesmo palco e a mesma projeção, alimenta o imaginário de ser o próximo assassino. É nítido. Dar palco para violência, não educa.
Ela incentiva. Talvez esteja na hora de perguntarmos, sem medo de parecer insensíveis, se não chegou a hora de repensar radicalmente a maneira como a imprensa divulga esses crimes. Não como censura, jamais, mas como responsabilidade social, baseada em evidências científicas, baseada em outros contextos conhecidos e na ética mais elementar de tentativa de preservação de vidas. O Brasil não precisa de mais manchetes. Precisa de política pública eficaz, de investimento em prevenção, de acompanhamento psicológico para potenciais agressores, de punição muito severa para autores e de redes de proteção para as mulheres que vivem sob essa ameaça, muitas vezes invisível.
E, acima de tudo, o Brasil precisa abandonar o hábito macabro de divulgar tragédias. O feminicídio não é uma série de TV.
É um colapso social. E enquanto continuarmos narrando cada caso como espetáculo, estaremos, ainda que involuntariamente, alimentando o próximo crime. A pergunta que fica é simples, mas pra mim é assustadora: Quantas vidas ainda aceitaremos perder antes de entendermos que a forma de contar a violência incentiva mais ainda a violência? Pensemos nisso. 🤔
Cleonio Dourado ✔


Perfeito!!! Como de sempreee!!!
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