Na mesma rua de terra batida nasceram duas meninas.
Tinham o mesmo nome: Maria.
Estudaram na mesma escola pública, usaram o mesmo uniforme e sonharam, um dia, em sair dali. O tempo passou. E o país mudou.
E as Marias mudaram de formas muito diferentes.
Maria Direita foi ensinada desde cedo que a vida exigia esforço. Estudou, trabalhou, fez estágio, fez concurso, entrou no serviço público. Casou-se com um homem que seguiu o mesmo caminho. Criaram os filhos ensinando que estudo era obrigação e trabalho era dignidade. Hoje, aos 50 anos, vivem de aposentadoria conquistada por anos de contribuição. Têm casa própria, carro na garagem e viajam uma vez por ano. O filho é bombeiro militar. A filha é advogada e estuda para concursos. Não são ricos.
Mas são livres. Dependem do próprio mérito e não de favores do Estado. Maria Esquerda também cresceu naquela rua.
Mas a má política entrou cedo em sua casa, com promessas de vida fácil. Quando o primeiro auxílio chegou, o trabalho pareceu algo dispensável. Trabalhar pra que, se o governo me dá o básico?
Vieram 06 filhos. Vieram 09 netos. E ainda mantinham a ideia de que o governo era pai. Hoje, separada, vive com os filhos e netos, amontoados em um barraco alugado. Até o gás vem do governo. A comida vem do cartão. As contas não fecham. Os filhos fazem "bicos" para não perder o auxilio do governo. As filhas aprenderam cedo que não trabalhar é normal. A neta mais velha, de 15 anos já está grávida e já pergunta quanto vai receber.
A dependência virou a única herança. O assistencialismo virou sobrevivência. Se o benefício acabar amanhã, a casa passa fome, Maria Esquerda não tem renda. Mas também não aparece como desempregada nas estatísticas. Vive fora do trabalho e dentro do sistema. Enquanto Maria Direita ensina aos filhos: “Você precisa caminhar sozinho.” Maria Esquerda ensina aos netos: “O governo cuida da gente.” E assim o Brasil foi se dividindo em dois países dentro do mesmo território. O dos que conquistam e o dos que aguardam. Não é uma guerra entre pobres e ricos. É uma disputa entre responsabilidade e dependência. Entre autonomia e esmola.
O drama é que o governo comemora a quantidade de Marias Esquerda como vitória social, enquanto esquece que cada Maria que depende é uma Maria que deixou de sonhar.
O futuro do Brasil não será decidido por discursos, mas por qual Maria se tornará maioria. A que trabalha para viver?
A que vive do trabalho dos outros?
E toda nação que troca dignidade por benefício acaba pagando com gerações inteiras presas ao mesmo lugar.
Duas Marias nasceram iguais e terminaram em países diferentes.
A culpa é de quem?
Cleonio Dourado ✔