Há cidades que nascem como quem planta uma semente à beira do caminho, sem saber se vai virar árvore ou vai secar antes de florescer. Salvador nasceu assim, em 1549, pelas mãos de Tomé de Sousa, primeira capital, primeira promessa, primeiro sonho de um Brasil que ainda engatinhava, nascia ali o Estado da Bahia.
Setenta e cinco anos depois, do outro lado do oceano, um punhado de holandeses fincou bandeira numa ilha estreita chamada Manhattan e deu a ela o nome de Nova Amsterdã, que depois viria a ser o Estado Nova York. Duas crianças do mesmo século, nascidas do mesmo impulso. Nascidas pelo comércio perto do mar, na época em que a ambição de conquistas no mundo surgia. E no entanto, olhando hoje para essas duas cidades, Salvador e Manhattan, é como olhar para duas pessoas que tomaram estradas diferentes. Eu penso muito nisso.
O tempo, sozinho, não constrói nada. O tempo é só o pano de fundo. Quem pinta o quadro é a mão que segura o pincel e essa mão, é o governo. É o sistema. É a escolha repetida dos mesmos líderes, geração após geração. É a escolha do líder de proteger ou de saquear, de investir ou de esquecer, de olhar para o povo como razão de existir ou somente como recurso a explorar.
Salvador é mais velha, tem quase um século de vantagem.
Tem o mar generoso, a terra fértil, a gente guerreira.
Mas teve também décadas de decisões que trataram sua gente como voto, não como povo. Nova Iorque, mais jovem, mais tardia, encontrou no seu caminho instituições que apostaram em seu futuro, em propriedade, em leis, em regras que vale para todos, em cidade que se refaz porque tem quem um governo que cuida dela como se fosse sua própria casa. Não é sobre quem chegou primeiro. É sobre quem foi cuidado. Porque uma cidade é como uma criança. Pode nascer no berço mais rico do mundo e ainda assim crescer faminta, se ninguém segurar sua mão.
E pode nascer tarde, no frio, na pobreza, e ainda assim se tornar gigante, se alguém acreditar nela todos os dias, com trabalho, com incentivos, com honestidade. Eu já vi isso de perto, na farda que visto e na caneta que em empunho. Instituição que funciona é isso, é gente que aparece todo dia para servir, não para se servir.
Governo não é só quem manda. Governo é o hábito honesto de manter e realizar promessas. E cidade que floresce é cidade onde essa promessa não se quebra. Salvador é linda. Tem a Bahia no peito e o mar nos olhos. Mas a diferença que vemos hoje entre ela e Nova Iorque não é sina, não é destino, é a soma de escolhas, feitas e refeitas, por quem teve nas mãos o poder de escolher.
E é aí que mora minha esperança, porque escolha se refaz.
O que os homens e mulheres decidiram um dia, homens e mulheres podem decidir de novo, diferente e melhor.
Que a gente nunca esqueça, que uma cidade e um País não é feito só pelos palácios e paisagens. É feita de gente que governa pensando no amanhã de quem ainda vai nascer.
Que assim seja, aqui e em qualquer canto onde exista um povo esperando ser cuidado. E cuidado não tem nada haver com esmolas e coisas dadas de graça. Cuidado tem haver com futuro, dignidade, segurança, paz e orgulho de onde você está.
E agora, felizmente e mais uma vez, em cada Cidade, em cada Estado e em nosso Brasil, chegou a hora de mudar.
Cleonio Dourado ✔