Sou católico.
Daqueles que ainda fazem o sinal da cruz ao dormir e acordar e ao passar diante de uma igreja e que, embora nem sempre compreenda o mistério do pão que vira corpo, ajoelho-me com reverência e respeito. Acredito em Deus, na vida eterna e no céu.
E, ainda assim, confesso que tenho lá minhas dúvidas sobre quem vai ou não para lá. E, falando sobre isso, ontem me perguntaram:
- Você acha que o Mojica, um político progressista, ateu, que legalizou o aborto e as drogas ou o Divaldo, um Espírita, podem ir para o céu?" E eu, na minha fé cheia de tropeços e dúvidas, fiquei em silêncio por alguns segundos, como quem pede um sinal de Deus. - Acredito num Deus que conhece as pessoas.
- E, com toda humildade, não acredito que o céu seja um lugar exclusivo para quem cumpre todas as regras da Igreja Católica ou Evangélica como quem marca itens de checklist.
Conheço muitos que comungam todos os domingos e, na segunda, negam um pedaço de pão a quem tem fome ou coisa pior. E também conheço uns ateus e espíritas que, embora não creiam ou tenham uma outra visão do Evangelho, vivem uma vida mais justa do que outros que dizem crêem. Mas voltemos à pergunta. Uma pergunta que carrega veneno e julgamento, não sobre a eternidade, mas sobre os caminhos até ela. Pro conservador radical, o ateu, já tem uma sentença de exílio eterno no inferno. É o Espírita, muitos julgam e não aceitam como religião cristã, por não seguirem todos os ritos e dogmas das igrejas tradicionais e terem uma abordagem própria sobre a vida, a alma e a evolução espiritual. Mas, no entanto, Jesus, O que eu sigo, não perguntou ao ladrão se ele era de direita ou de esquerda ou qual a sua religião. Não pediu certidão de batismo, primeira comunhão e crisma. Nem testou ali na Cruz os seus conhecimentos teológicos. Apenas olhou para ele, e disse:
"Arrependei-vos e hoje mesmo estarás comigo no paraíso."
Talvez o que assuste, na verdade, não seja a possibilidade de um ateu entrar no céu, mas a de que Deus não consulte nossa pessoa e sim nossa vida antes de abrir os portões. Talvez Deus esteja mais interessado nos atos do que nos discursos. O céu não é nosso. É de Deus. E Ele o dá a quem quiser.
Como conservador, discordo de muitas coisas que Mujica pregava, mas vi nele algo raro: A bondade sem aplauso, o cuidado sem palco, o político sem ego. E, talvez, pra Deus, isso pese mais do que pregar sermões "Of the King the Power the Best" nas Igrejas.
Há gestos que tocam o céu e o dono nem sabe.
Assim, como também, há atos que o afasta.
E se, ao chegarmos lá, encontrarmos alguns desses que julgávamos, talvez seja o caso de baixar os olhos, calar os pensamentos, amolecer o coração e aceitar o mistério da vida eterna, agradecendo por termos sido abençoados e admitidos também, mesmo com todas as nossas certezas, incertezas, julgamentos e pecados tão bem disfarçados.
Descanse em paz, Sr. Mujica.
Descanse em paz, Se. Divaldo.
Cleonio Dourado ✔

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