Nos últimos meses, o Brasil bateu recordes.
Mas, não foram recordes de alfabetização, nem de cirurgias feitas pelo SUS, nem de famílias saindo da miséria. Batemos recorde em investimento de dinheiro público na cultura. Bilhões liberados para shows, festivais, prêmios, filmes, turnês e cinebiografias. Os aplausos e elogios ecoam, mas não chegam às filas das UPAs, hospitais, escolas e nem ao beco onde a criança ainda espera o pão e educação que nunca vem. Não é contra a cultura. Amo música, filmes e livros. É contra o descaso.
Não se planta arte em solo estéril de dignidade. Filme não mata fome. Música não cura doença. Livro não vale nada na mão de quem não aprendeu a ler. Qual é a prioridade de um país onde a verba para shows milionários supera o orçamento de escolas que ainda têm banheiro sem porta e merenda vencida? Onde o artista com jatinho particular recebe incentivo fiscal, enquanto o agente de saúde ganha um salário que mal cobre a passagem do ônibus?
A pobreza não diminui com a performance cheia de som e luz da artista internacional. O cinema não substitui o remédio que falta no hospital. A poesia não ajuda na guerra entre o traficante e o policial. A cultura é nobre, sim. Mas só é justa quando caminha ao lado da justiça social. Quando ela é usada como pano para esconder a podridão do abandono, vira propaganda e propaganda não salva vidas. É preciso perguntar: Que país o dinheiro do povo está financiando? O do artista ou o do povo? O da elite cultural que vive de cachê ou o da criança que nunca foi ao teatro porque não tem nem sapato? A arte liberta, dizem.
Mas no Brasil de hoje, ela virou algema. Enquanto o povo passa de fome, o governo distribui ingressos pagos com o suor de quem nunca vai sentar na plateia. Pão e circo sempre entretém quem não se importa. E o silêncio pra tudo isso, abafa as palmas de quem tem lugar no camarote "open bar" para assistir o espetáculo. E a vida real continua sem conseguir imitar a arte.
Cleonio Dourado

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