A miséria encanta o rico de esquerda.
Eles posam para fotos com crianças desnutridas e descalças e postam em preto e branco com um ar de arte com a legenda "resistência". Após isso, voltam ao. espumante francês com morangos gigantes e aos mojitos gelados na piscina aquecida do hotel cinco estrelas. É que pro rico socialista, a pobreza é só um cenário. É um pano de fundo onde ele posa como herói. Diz que o povo é feliz, mesmo com fome. Que é digno, mesmo sem dignidade, que é rico, sem moradia decente. Dignidade, pra eles, é ter sorriso sem dente. É saber dançar mesmo com o estômago vazio. É sobreviver à miséria e ainda agradecer.
É fácil falar de socialismo com o frigobar cheio. É cômodo defender Cuba tomando vinho chileno. É bom militar por igualdade quando se tem certeza de que nunca vai estar dela.
A pobreza, na narrativa deles, é quase poética. Porque o pobre é um personagem. Um símbolo, não uma pessoa.
E se a realidade atrapalha o discurso, que se inverta a realidade.
Eles não querem acabar com a pobreza. Eles querem administra-lá. Controlá-la. Usá-la como desculpa pra manter seu poder. É que no fim das contas, não é sobre justiça social. É sobre domínio.
Pra eles, quanto mais o povo sofre, mais precisa ser salvo. E quem melhor pra salvá-los? Fazer turismo por lugares pobres é como se fosse uma viagem espiritual, um retiro de consciência social. Visitam as ruas esburacadas, as prateleiras vazias, as pessoas famintas e casas caindo aos pedaços e dizem, com brilho nos olhos: "Aqui o povo é feliz." Precariedade não é poesia.
Resistência não é romântico. Fome não é bonito.
A romantização da pobreza virou um fetiche. Dizem que o pobre é “resiliente”, “acolhedor”, “digno” e talvez até seja.
Mas não porque escolheu a escassez. É digno apesar dela.
O povo pobre não é inspiração por estar faminto, é apenas um sobrevivente do sistema que o usa.
É fácil aplaudir a pobreza dos outros quando a vida miserável, mas digna, não é a sua.
Cleonio Dourado ✔
Nenhum comentário:
Postar um comentário